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Carreira Inquieta

O Mito da Rotina Perfeita: Como um Pós-Doutor

03/12/2025 às 13:20 // Vida com TDAH.

Quando as pessoas descobrem que sou Pós-Doutor em Finanças, a imagem que vem à mente é a de um homem metodico, com planilhas coloridas para tudo e uma agenda seguida ao minuto.

A realidade, no entanto, é bem mais caótica.

Minha mente é inquieta. Detesto rotinas rígidas. Se eu tentar seguir um cronograma inflexível de "acordar às 5h, meditar às 5h30, ler às 6h", eu vou falhar no terceiro dia e me frustrar. O TDAH não combina com a perfeição monótona.

Mas se minha mente é um caos, como cheguei ao topo da carreira acadêmica?

A resposta passa por uma postura que adotei muito cedo, talvez por necessidade: a recusa ao vitimismo.

Cresci em uma época e em um ambiente onde o TDAH não era uma carta branca para o fracasso. Meus pais nunca me trataram como "café com leite". A escola pública onde estudei nunca me deu tempo extra de prova, sala separada ou avaliações adaptadas. As regras eram iguais para todos. Se eu não entregasse o trabalho, eu rodava. Se eu não estudasse, eu tirava zero.

Pode parecer duro para os padrões de hoje, mas acredito firmemente que essa falta de tratamento especial foi um dos fatores determinantes para o meu sucesso.

Como o mundo não se adaptava a mim, eu fui obrigado, na marra, a me adaptar ao mundo.

Eu não podia me dar ao luxo de dizer "não consigo focar". Eu tinha que encontrar um jeito de focar. E foi assim que desenvolvi minhas próprias estratégias de guerra, que uso até hoje:

1. Eu não confio na minha memória Eu sei que vou esquecer. Então, eu anoto tudo. Não uso "memória de cabeça". Se não está na agenda do celular ou no papel, não existe. Aceitar que minha memória RAM é falha não é fraqueza, é estratégia.

2. Abracei a urgência parei de lutar contra a minha natureza. Se eu funciono melhor sob pressão, eu uso isso a meu favor. Crio prazos artificiais. Deixo para "dar o gás" na reta final porque sei que é ali que meu hiperfoco brilha. Em vez de me culpar por não estudar um pouco todo dia, eu aceito meu ritmo de maratonista de última hora.

3. O feito é melhor que o perfeito o perfeccionismo é o maior inimigo do TDAH. Muitas vezes travamos porque queremos fazer o melhor trabalho do mundo. Aprendi a entregar. Um trabalho entregue, mesmo que não seja a obra-prima que imaginei, vale mais do que um projeto perfeito que nunca saiu da minha cabeça.

A mensagem que quero deixar para você, adulto com TDAH, é: não espere que o mundo se curve às suas dificuldades. O mercado de trabalho, a academia e a vida real cobram resultados.

O TDAH explica nossas dificuldades, mas não pode ser usado para justificar nossa paralisia. Ter sido tratado como uma pessoa "comum" me forçou a desenvolver uma resiliência incomum. E é essa resiliência, mais do que qualquer planilha, que vai te levar longe.

 

Aviso Legal


Este relato é baseado na minha experiência de vida pessoal. Eu sou um Pós-Doutor em Finanças e não possuo formação na área da saúde. Este texto reflete minha vivência e não substitui, em hipótese alguma, a avaliação médica e psicopedagógica. Cada indivíduo é único e o acompanhamento profissional é indispensável.

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