Blog pessoal sobre TDAH diagnosticado na vida adulta. Relatos reais de um Pós-Doutor com TDAH sobre carreira, neurodivergência, ciência e os desafios do dia a dia.


09/12/2025 às 16:59 // Diagnóstico Tardio.
A vida tem uma maneira curiosa de nos dar pistas sobre quem somos, muito antes de estarmos prontos para entender.
Vocês sabem que recebi meu diagnóstico de TDAH tardiamente, aos 44 anos, já no auge da minha carreira acadêmica como Pós-Doutor em Finanças. Esse diagnóstico foi uma luz que explicou décadas de caos interno e uma mente que nunca desligava.
Mas há uma parte da minha história que pouca gente conhece, e que hoje, olhando para trás, faz um sentido avassalador.
Há mais de dez anos, muito antes de desconfiar que minha própria mente funcionava de forma diferente, eu comecei um trabalho voluntário.
Eu não estava na linha de frente. Você não me veria nas salas de terapia ou nas atividades diretas com as pessoas no Espectro Autista. O meu lugar era nos bastidores.
Toda semana, eu usava minha experiência profissional em finanças e gestão para organizar a estrutura de uma associação focada no autismo. Eu lidava com planilhas, orçamentos, burocracias e planejamento estratégico.
O ápice desse trabalho foi ter a honra de ajudar a viabilizar e construir a nova sede física da instituição.
Durante anos, eu me perguntei o porquê. Por que, com uma rotina profissional tão insana, eu dedicava tanta energia para erguer aquelas paredes?
Eu não tinha respostas racionais. Eu só sabia que garantir que aquele espaço existisse, que aquela estrutura fosse sólida e segura para aquelas famílias, me trazia uma satisfação que nenhum bônus corporativo trazia.
Hoje, com o meu diagnóstico de TDAH em mãos, as peças se encaixaram.
Eu acredito que, no fundo, minha mente inquieta buscava criar ordem e estrutura para quem, assim como eu, não se encaixava no padrão "típico" do mundo. Era um paradoxo interessante: enquanto eu lutava contra minha própria desorganização interna (algo típico do TDAH), eu hiperfocava em criar uma organização externa perfeita para eles.
Sem saber, eu estava trabalhando para os meus pares. Eu estava, literalmente, ajudando a construir a "casa" onde, anos depois, eu entenderia que também era bem-vindo.
Descobrir meu TDAH não mudou meu compromisso com a causa; apenas o aprofundou. Agora eu sei que não sou apenas um administrador aliado. Eu sou parte da mesma comunidade ampla da neurodiversidade.
E isso torna a missão deste blog ainda mais clara: construir pontes (e sedes, se preciso for), quebrar estigmas e mostrar que mentes diferentes têm um potencial brilhante para oferecer ao mundo, seja no palco ou nos bastidores.

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